Take this Waltz

Margot sente medo de estar entre duas coisas. Com constante senso de perigo, sente medo de sentir medo. As unhas azuis dos pés dela denotam uma fragilidade, uma delicadeza infantil, uma Madame Bovary oculta, uma palhaça triste. Como adulta ela escolhe não sucumbir à melancolia, ainda que pareça perdida e se sinta culpada por ter se apaixonado por outro… casada. 

A bolsa cai dos ombros dela depois dos martinis redundantes – drink inocente (ou indecente?) com o vizinho. Ela chega em casa e precisa de um banho depois de ouvir tudo que Luke Kirby faria com cada centímetro dela, incluindo até a marca de nascença. Ele mantém os olhos doces enquanto seus lábios não poupam termos devassos. Do breve encontro fica a promessa de um cândido beijo em 5 de agosto de 2040, depois de muitos anos de fidelidade conjugal.

O jato d’água esfria não por acaso, uma piada construída a longo prazo pelo amável esposo Seth Rogen, sempre cozinhando frango, de quem ela não sente vergonha, mas “exige muita coragem tomar a iniciativa de seduzir”, nem sempre sincrônica ou recíproca – bem virginiana mesmo essa Michelle Williams. Desfazer um relacionamento é também romper com toda a união da família e dos amigos. Não é uma escolha nada fácil, ressaltada pelas lembranças nas várias fotos emolduradas na parede no enorme corredor que ela atravessa. Mas eles não têm mais o que dizer um para o outro. A música que ela escuta dentro da casa não é a mesma que ele escuta do lado de fora.

Sarah Polley sabe dosar momentos de sutil alívio cômico na trama de Entre o amor e a paixão (2011), cenas que mais nos confortam do que divertem, como o estético xixi azul na piscina após a aula de hidroginástica ridícula. Um threesome surge com a mesma naturalidade da nudez na ducha do clube: de um lado jovens aventureiras, do outro, idosas ponderadas. Um novo casal se completa e se consome até se entediar, numa valsa 360º sincronizada com a faixa título Take this Waltz, do Leonard Cohen. 

A diretora acerta também na iluminação, que marca a clara distinção de um dia que se torna noite para a personagem fechada no quarto. Ela não hesita ainda em mostrar o que acontece depois do final feliz, os problemas continuam, resta a nostalgia pelo passado. A TV e o ventilador são os indícios da mesmice, “o novo se torna velho”, como alertaram as sensatas senhoras. Com o tempo, nada mais importa, apenas a plenitude de Margot, brincando sozinha no carrinho do parque.

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