AÇÚCAR

Bethania (Maeve Jinkings) surge num barco escrito “sou feliz”, evidente contraste com sua imagem claramente melancólica. Com seus cabelos loiros alisados, recusa ajuda. Abre janelas, desfaz malas, limpa minúcias e não consegue segurar uma exclamação admirada de “linda!” ao se deparar com uma boneca de porcelana branca. 

Sua família é dona das terras, fato do qual ela se orgulha mesmo não podendo mais sustentar a estrutura da casa grande tão gasta pelos séculos. Solta os cabelos loiros diante de Alessandra (Dandara de Morais), menina negra que trabalha para ela, como uma tentativa de ostentar sua ilusória diferença. Ilumina e sexualiza o corpo negro de Zé Maria (José Maria Alves), personagem de seus conflitantes devaneios eróticos e a quem mal agradece pelos favores que considera obrigações.

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Dona Branca (Magali Biff), que reforça o simbolismo de seu nome, está ressentida a ponto de alterar a oração do Pai Nosso – marca da religiosidade cristã em contraste com a africana presente no local – para “assim como perdoamos nossos devedores”*. A classe branca aqui sente que deve ser sempre servida e tudo se deve a ela. Uma das cenas mais dolorosas é quando, bêbadas, as duas cantam com alegria postiça e tom de deboche a infame cantiga ‘Escravos de Jó’ antes de se desnudarem de mãos dadas na floresta. A fantasia termina com Bethania sozinha. 

*Isabel me disse depois que esta é a versão evangélica e espírita da oração.

A catarse da protagonista funciona de certa forma como uma redenção estética, perigosa por não ser verbalizada, expressa principalmente na gradativa transição capilar. Bethania percebe que apesar de seus esforços de pertencimento, a ela também cabe o destino de servir à classe privilegiada. “Os pratos estão vazios”. A provocação resulta na reação: “Essa terra sou eu”, última e poderosa fala do filme. O tambor fica mais alto e a iluminação da sala vai para a floresta, lustre em mãos, surreal. Ela copula com a terra, em outro transe. Alessandra a acolhe e fecha as janelas. Ela observa uma parte de si, claramente transformada, partir com o barco que a trouxe. Mas outra parte dela fica.

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Posso julgar ‘AÇÚCAR’ (2017), de Renata Pinheiro (também dona do meu querido ‘Amor, Plástico e Barulho’) pelo ponto de vista não tanto político, mas poético, e pelo impacto, especialmente visual. O filme acabou e continuo cheia de dúvidas e desconfortos, sobre os quais o lugar de fala me impediria falar com a profundidade da vivência na pele. 

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