A VIDA INVISÍVEL

Senti desespero e desolação. Senti o medo do vento e da tempestade quando na floresta uma chama pela outra:

– Eurídice! 

– Guida!

Perdidas desde o início, assim ficam as irmãs ao longo de toda a película, enviando cartas saudosas (ou seriam diários?) nesta adaptação de Karim Aïnouz do romance epistolar de Martha Batalha. Impedidas de realizar seus sonhos, invisibilizadas, hostilizadas e enganadas pela própria família e pelas convenções sociais. 

– Você tá tão bonita com esse vestido!

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O brinco caído da avó vira colar, vira pingente, o eterno patuá da Cinderela que se perdeu no mundo por um amor equivocado pelo marinheiro, um presente de grego no ventre. Um corpo que perde o desejo em prol da responsabilidade materna, e que como ensina Filomena, aprende a se divertir sozinho. A carta lida pelo pai não carrega a mesma poesia de quando lida com a lembrança da voz da irmã que já não faz mais parte da família. Não dói como o perfume espirrado na almofada. A mãe é a sombra do pai. Família não é sangue. É amor. Tava sol, agora tá chovendo. Pariu e foi pro samba. Pariu e foi pro samba. Anotei duas vezes. O amor de Chico ajuda. A mor fina ajuda. 

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A alegria do casamento desconexo parece compulsória e postiça. Pega o membro e vomita. Vê o membro e gargalha. Como todo filme novo que se preze, o homem aqui perde muito poder pra sororidade, quase justa e tardia misandria. Contemplo uma imagem bizarra do casal refletida no espelho. Posso ouvir a música saindo pelos olhos da noiva que se pergunta como Peggy Lee, ‘’Is That All There Is?’

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O piano fantasmagórico embala a dor de toda idealização do encontro impossível, de toda alegria postergada, a nostalgia dos bons momentos fraternos que faz chorar e ao mesmo tempo, sorrir. E eis que Eurídice finalmente aceita a morte lenta. 

– Quando eu toco, eu desapareço…

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Fernanda Montenegro ressurge enorme na tela para ler suas cartas, como fez há vinte anos em Central do Brasil: sinto cheiro do Oscar perdido, cheiro de queimado, cheiro do bacalhau na mesa posta para o Natal. Um abraço, mesmo décadas depois, consola um pouco a alma:

– Guida!

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