Era uma vez em Hollywood

Tarantino sempre passa do ponto em algum momento, mas ainda vale a pena. Fui pro cinema apenas com uma sinopse meio torta e os teasers engraçadinhos que não pude evitar: Margot estava felizinha demais, todo mundo numa vibe muito cínica e eu com o crime terrível ocorrido em 1969 martelando na cabeça. 

Desta “carta de amor a L.A”, como definiu o diretor, me interessava mais tempo para a breve carreira de Sharon Tate (Margot Robbie), que apesar das pouquíssimas falas se mantém fascinante, talvez ironicamente, por esse motivo: o brilho do silêncio contemplativo, a existência bela (e vazia?) per se. Envolta em sua ego search da época, Tate passa os dias a dançar feliz e despreocupada, no frenesi de não pagar a sessão de cinema após se fazer reconhecida na bilheteria. A expressão máxima que ganha é ao ficar melancólica durante a gravidez, na noite mais quente do ano:

– Bom garoto!

– Filme pornô tem estreia?

– Parece que vou estourar (duplo sentido perigoso).

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A rotina de Cliff Booth (Brad Pitt), dublê e faz-tudo, com sua pit bull Brandy é bem mais interessante do que a do amigo “ao mesmo tempo lisonjeado e constrangido” Rick Dalton (Leonardo DiCaprio). O produtor Marvin (Al Pacino) completa bem a dinâmica como o estereotipado poderoso chefão italiano. Pussycat (Margaret Qualley), “Everybody loves pussy” Gypsy (Lena Dunham), Tex (Austin Butler), Squeaky (Dakota Fanning) e George (Bruce Dern) ajudam a formar o retrato bizarro das redondezas da Família Manson.

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Personagens femininas devem ser melhor desenvolvidas no cinema, é uma luta constante. No entanto, Tarantino mantém aqui sua tradição de ninfetas com pés sujos em evidência – e talvez tenha inaugurado um novo fetiche por mulheres roncando (ou perdi algo?) – ainda que em alguns momentos a moralidade de Cliff surpreenda, ao pedir a identidade da mocinha na carona. Costumo relutar em separar filmes da enxurrada de polêmicas que os envolvem: a misoginia problemática do herói que talvez tenha matado a esposa; o fascínio pela violência extrema – que pode ser explicado pela teoria do horror – e vale lembrar – Roman Polanski (Rafal Zawierucha), o grande diretor e o caso de abuso, aqui não tem nenhuma fala. Nas escadas do rancho, sapatos masculinos sobem, saltos femininos descem, simultaneamente.

Não consegui me entregar ao tom de comédia, nem entender seu propósito. Cresci vendo Di Caprio envelhecendo nas telas: nesta segunda contribuição ator-diretor, nunca tão bem-humorada, há brincadeiras até com o ego e o overacting do primeiro e o lado ultra-sensível do personagem conseguiu arrancar uma gargalhada do meu desconforto. Tem espaço para auto-deboche de Bastardos Inglórios (2009) e uma cena de luta entre mulheres em algum filme do final dos anos 60 que parece ter sido uma referência para Kill Bill (2003).

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Não tenho muito apreço nem dedicação ao gênero western, mas o cuidado da produção com detalhes, as placas em neon (meu fraco), carros, motos e cavalos em alta velocidade e o paralelo entre os cowboys do faroeste e os “fucking hippies” marginalizados me fazem considerar esta homenagem metalinguística ao cinema bem mais memorável do que Ave, César! (2016), dos irmãos Coen, por exemplo. Um retrato não só da perda da inocência, temática central que permeia todo o filme, mas um lembrete da subversão da propaganda de paz e amor difundida da (contra)cultura para a sociedade de consumo. 

Datas carimbadas na tela conferem uma enganosa verossimilhança e alimentam o suspense – temi que o diretor ousasse reproduzir os fatos até o último momento. Mas a história real é tão sinistra e absurda que nem o mestre do gore gratuito mainstream foi capaz de representa-la graficamente nas telas. Ainda bem.  icons8-estrela-de-natal-50icons8-estrela-de-natal-50icons8-estrela-de-natal-50icons8-estrela-de-natal-50

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