A Forma da Água

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Contém spoilers

“Se eu fosse lhe contar sobre ela, a princesa sem voz… o que eu contaria?”

Elisa (Sally Hawkins), sonhadora sempre atrasada, ao se preparar para o turno que começa a meia-noite, desperta de seu sofá, cozinha ovos e engraxa os sapatos. Como parte da rotina rigorosa, exibe uma nudez não sexualizada, provando de sua banheira ter mais desejos do que um par de sapatos que avista na vitrine e não pode comprar (“inventaram os cereais de milho para acabar com a masturbação… não funcionou”). Profissional da limpeza, tem contato direto com a sujeira humana, pois ela e sua hilária amiga Zelda (Octavia Spencer), que por muitas vezes fala o que ela não pode gritar, são  privadas de direitos básicos, como usar luvas de proteção durante o trabalho.

Elisa se vê fascinada pela repugnância animalesca do homem anfíbio vivido por Doug Jones, que em seu momento mais ameaçador devora outro animal (pobre Pandora!), mas ainda assim nos inspira compaixão. Criado à imagem e semelhança do Monstro da Lagoa Negra (1954) – cujas aparições são horroríficas, tratado como demônio, porém mais ameaçado do que ameaçador – aqui é visto como deus, adorado pelos povos sul-africanos.

O ser desperta admiração, ainda que tenha sido aprisionado e não seja tratado com o respeito que merece. Seus poderes vão muito além de fazer crescer cabelo, permitindo a Giles (Richard Jenkins) uma aceitação mais amena de sua velhice, tanto quanto de sua homosexualidade, ao se defrontar com a hipocrisia no local onde comprava tortas horríveis em troca da verde esperança, que não obtinha só no sapateado de Shirley Temple na TV, ignorando o horror do apartheid em outro canal. 

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A inversão se dá pelo verdadeiro monstro ser Richard (Michael Shannon), o humano branco que lê livros de auto ajuda e depende do porrete e do carro do ano como extensões de sua masculinidade. O vilão estereotipado chega a tentar abusar de Elisa e é racista a ponto de rejeitar os implantes dos próprios dedos recuperados, porque estavam se tornando escurecidos.

A Forma da Água, novo filme de Guillermo del Toro, com roteiro do diretor e de Vanessa Taylor, mantém a admiração inocente que os românticos dos anos 60 tinham por musicais em preto e branco, enquanto As Noites de Mardi Gras (1958) e A História de Ruth (1960) passam no cinema deserto. A delicada trilha instrumental de Alexandre Desplat ainda abre espaço para canções de Carmen Miranda e “You’ll Never Know”, cantada por Alice Faye em Aquilo, Sim, Era Vida! (1943), entre outras.

O romance atípico ambientado durante a Guerra Fria, em que norte-americanos buscam vantagem contra soviéticos, flerta com o noir, com uma narração que o inicia e finaliza. A criatura dá a Elisa, que fora encontrada na água quando bebê, outra vítima da crueldade humana, a oportunidade de salvar e de ser salva, ao que ambos retornam para sua origem aquática. (4,5)

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