Mate-me por favor

No longa Mate-me por favor (2015) – em cartaz nas melhores salas, incluindo meu querido Cine 104 no Centro de BH – a diretora Anita Rocha da Silveira demonstra maturidade e coragem ao colocar em tela muitos não-ditos, construindo um terror genuinamente nosso, repleto de elementos nacionais. A ousadia de incluir na mesma panela o horror, o funk e o sangue de Jesus escorrendo é no mínimo admirável.

O longa começa com um dos closes bergmanianos em um rosto cujo olhar negro é penetrante. As luzes da cidade contornam a menina misteriosa, que logo se vê encurralada e grita desesperadamente diante de algo que só ela está vendo. Mas esta não tem tempo de ser a protagonista…

Bia é uma garota sombria que caminha sozinha pela noite, enquanto descobre sua sexualidade de forma instintiva, com certa afobação, mas muita naturalidade. Por lhe faltarem palavras que manifestem seus antagônicos desejo e apatia, a lindíssima jovem atriz Valentina Herszage declama poemas do simbolista Augusto dos Anjos em meio a desenhos e objetos de caveiras estrategicamente posicionados. Em seu quarto uma foto se destaca na parede, mostrando que mesmo na infância ela já carregava melancolia em seu rosto. Apesar da conexão com as amigas, ela se perde na contemplação das excessivas pegações pelos corredores do colégio em um mundo sem adultos – assim como ocorre no pungente Corrente do Mal (2014), com temática análoga.

Um dos planos mais bonitos e simples que vi esse ano foi a aproximação progressiva da câmera trazendo cuidadosa iluminação ao mato no terreno baldio da Barra da Tijuca (“que não é Sodoma”). Estremeci ao relembrar histórias ouvidas quando criança – como a da atriz global assassinada pelo casal da vida real. No entanto, o clima sinistro não impede o choque pelo contraste e a cineasta transita entre gêneros, encaixando videoclipes que flertam com Bollywood e com uma celebridade que tem ares de Mara Maravilha.

Teria “o” psicopata apenas um rosto? É necessário nomear o monstro para conseguir colocar a cabeça do travesseiro? Pode até nos ser instintiva a busca por sentido, e por isso mesmo é muito mais perturbador quando não somos satisfeitos em nossa lógica, causando feridas incômodas em nossas certezas. A elegância reside no não revelado, um mistério sem obrigação de se resolver em cena, pois assim é na vida, sem respostas fáceis, entre injustiças sobre as quais muitas vezes apenas teremos indícios de uma suposta verdade. Toda estética aqui não é gratuita, mas serve ao propósito surreal de prender eternamente aquelas almas de mochila ao angustiante purgatório do Ensino Médio. A enigmática e pictórica cena final deixa na boca o gosto de sangue desejado pelos urubus voyeurs fascinados pela beleza da morte.

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