O paradoxo sobre ver BLIND

Como disse o Abner, “a vida é chata e as coisas se resolvem devagar…” Eu tô meio no escuro ainda, e talvez também por isso tenha me identificado tanto com BLIND (2014), primeiro longa de Eskil Vogt, roteirista do digníssimo Oslo, 31 de Agosto (2011).

BLIND é um filme incrivelmente visual, por mais paradoxal que isso pareça. Trata-se “dilma” moça, Ingrid, que perdeu a visão e está escrevendo uma espécie de narrativa a partir de suas lembranças imprecisas ao criar um par de personagens que interagem com seu marido Morten: Einar como um colega do passado e Elin como uma parceira descoberta em sites de encontros. Seus estímulos são transferidos para ambos, que existem para ajudá-la a compreender seus fantasmas, companheiros bem-vindos na solidão do processo de adaptação. Eles enxergam (e existem) por ela e se preciso, desaparecem, mudam de ambiente e até de sexo num piscar de olhos, ou melhor, num corte rápido.

Somos convidados a ver o mundo a partir de sua percepção, confusa e regada por muito vinho. As imagens são trabalhadas no fluxo do pensamento de quem escreve, na medida em que as ideias vêm à mente.  As sensações afloradas são mostradas “em tempo real”, favorecidas pelos recursos da edição cuidadosa que intencionalmente intercala a sutil distância entre o real e o criado, breves momentos de tela escura, barulhos assustadores, figuras desfocadas, e uma ótima trilha (“Cool Thing”, do Sonic Youth!) cortada e retomada de repente. Embora Ingrid imagine, por meio das aventuras estabanadas de Elin, um talvez exagerado preconceito sofrido por alguém nesta condição, ela não dramatiza nem é tratada como vítima, aprende a lidar com seus recursos e limitações e sábia, ri de si mesma, ainda que talvez, para não chorar.

BLIND não é um filme fácil, a primeira vez que assisti foi meio incômoda, mas de um jeito sedutor. A segunda, libertadora. De certa forma eu me sentia como ela, perdida, no escuro… Mas assistir a essa história peculiar ajuda a separar a paranoia da realidade e a valorizar o que podemos enxergar de fato. A conclusão é coroada pelo acerto de ponteiros entre o casal (ou não?) com o condizente dueto entre a atriz principal Ellen Dorrit Petersen e o vocalista da banda The White BirchI was blind, now I can see… 😉

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