A ESCRITA EM RUBY SPARKS

Ruby Sparks (2012) foi escrito pela também atriz principal Zoe Kazan (estigmatizada por alguns por ser filha do roteirista Nicholas Kazan e neta do diretor Elia Kazan) e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris (realizadores de Pequena Miss Sunshine e de muitos videoclipes bacanas).

SPOILER ALERT!! Assista ao filme e volte depois!

Calvin Weir-Fields (Paul Dano) é um jovem escritor aclamado por seu primeiro romance, lançado há uns 10 anos. O estigma de “gênio” o amedronta e faz com que tenha medo da reação dos leitores, assim como uma banda lança um primeiro álbum fenomenal e sofre a síndrome do 2º álbum. Esse aspecto de Calvin foi inspirado pela biografia do escritor J.D. Salinger (1919-2010), que após o sucesso O Apanhador no Campo de Centeio, lançado nos anos 50, se afastou da literatura e se isolou da mídia. O cão de Calvin, Scotty, foi batizado como uma homenagem ao escritor Scott Fitzgerald (autor de O Grande Gatsby, em 1925, entre outros clássicos). A insegurança de Calvin – e os consequentes bloqueios de escrita, além do trauma do abandono depois da morte do pai – o levou a se consultar com um psicólogo, que o instiga a preencher uma página – “de preferência muito ruim” – contando sobre os seus devaneios com uma misteriosa garota.

Lançado o desafio, os sonhos de Calvin lhe dão material criativo, e ele praticamente não consegue comer, nem dormir, só escrever. Se sente estúpido longe da musa inspiradora, e precisa produzir para estar com ela. A preferência old style de Calvin pela máquina de escrever merece atenção. O som das teclas é mais agressivo, poderoso, como um Deus que imprime no papel o destino. A máquina é a associação material de Calvin com Ruby, assim nomeada. A palavra escrita pela máquina é tão definitiva quanto marcas à tinta de caneta. Não é possível editar, nem voltar atrás como no Word, a não ser que embolemos ou rasguemos a folha de papel. Assim, o que Calvin digita se torna materializado em Ruby.

Os primeiros indícios da existência concreta da moça na vida de Calvin são marcas comuns da presença feminina em um ambiente masculino, como cosméticos no espelho do banheiro, ou lingeries no sofá. O irmão de Calvin o visita e decide ler o manuscrito, acompanhado por uma cerveja. O autor rebate as primeiras impressões que ouviu: “Eu não deveria mostrar um trabalho inacabado. Posso nem terminar…” Novamente sozinho, Calvin apaga a luz, toma com as mãos o texto em construção e sente nos dedos a corporificação do sutiã que encontrou na gaveta.

O próximo capítulo da obra de Calvin é como um sonho que se mescla à narrativa de forma quase imperceptível. O casal compartilha uma refeição junkie-food, como um retalho do cotidiano da conversa que Calvin teve com seu irmão. O pulo na piscina é a metáfora para a entrega, a desistência do controle e abertura para o temível desconhecido. E eis que Ruby (Zoe Kazan) se materializa. Calvin acorda de frente à máquina, muito atrasado para um compromisso com o editor. Ruby oferece para passear com Scotty e ele, ainda envolto pelo ambiente onírico, agradece. “Estou louco”, ele tenta se afastar, mas ela está ali, cozinhando. Um dos destaques para a trilha sonora de Nick Urata é o momento em que Calvin desce os degraus “pisando em ovos”, desconfiado, acompanhado no mesmo ritmo pelos acordes do piano.

Ruby dá o próximo passo: se convida para sair com ele. Calvin descobre que as pessoas também a veem e sua dificuldade de acreditar na existência da moça se dissolve. O início de um relacionamento é resumido na diversão contínua do casal: se embriagam com xotes vendo filmes de zumbi, trocam beijos entre as luzes neon do fliperama, se jogam na pista na boate… e a noite acaba bem, com um sutil simbolismo – Ruby, de vestido, tirou a calcinha.

O irmão de Calvin vai finalmente conhecer a personagem inventada que passou a ser real. Calvin avisa: “Ela não sabe que escrevi sobre ela. Apenas apareceu… E é uma cozinheira extraordinária!” e decide escrever algo para testá-la. Essa necessidade de provar a autoria reflete a ilusão do controle e a tentativa de domínio do autor sobre a obra. “Ela fala francês”. Quando eles retornam à sala, Ruby está falando francês fluentemente. Calvin sofre por conflitos morais e decide parar de escrever por um tempo. Mais adiante, o isolamento de Calvin deprime e pressiona Ruby:

– Você não tem amigos.

– Tenho você, não preciso de mais ninguém.

Ruby propõe um distanciamento saudável entre eles, e passa a dedicar um tempo aos estudos por uma noite semanal, o que se torna insuportável para Calvin. Ela telefona para ele de um bar e diz que não pretende voltar pra dormir. Ele se cansa da solidão, destranca o manuscrito da gaveta e ritualisticamente coloca a folha na máquina: “Ruby se sente miserável sem Calvin.” Alguns instantes depois o telefone toca e ela quer ir pra casa.

O casal assiste a Sabrina (1954), com Andrey Hepburn e Humphrey Bogart. Linus diz: “Nenhum homem está sozinho por opção”, enquanto – por uma interferência metalinguística – parece ouvir o telefone que toca, olhando para a casa de dentro da tela. Ruby se apega a Calvin de forma obsessiva, não quer que ele se afaste por nada, nem para atender o aparelho. E Calvin intervém: “Ruby é tomada pela mais efervescente alegria.” E Ruby fica tão irritantemente alegre, a ponto de reagir sorrindo com “me mande cartões postais” à ameaça de viagem de Calvin. “Ruby era apenas Ruby.” E a luz da cena vai lentamente se apagando.

Calvin encontra Ruby entrando na piscina com seu agente, seminua. A visível atitude despojada de Ruby é um dos indícios de surrealidade no filme, bem como o fato de a festa em que eles estão se esvaziar em um espaço de tempo muito curto, considerando a sequencia dos eventos. Em um ambiente onírico, os personagens podem nadar sem subir à superfície para respirar. A piscina, imagem recorrente, liga Ruby às suas origens, funcionando como seu líquido amniótico. Ruby está cansada de ser controlada pelas regras de Calvin, regras que ela sequer conhece. Ela percebe que ele tem um ideal platônico de namorada e decide partir. Enquanto Calvin está sentado de frente à máquina, por mais que Ruby tente passar pela porta aberta, uma força invisível a empurra.

– O que é isso?

– Meu livro, aquele em que NÃO tenho trabalhado.

– Não podes escrever sobre mim… É privado!

– Eu não escrevi sobre você. Eu escrevi VOCÊ.

E Calvin dá trancos na máquina para ajustar à página, como quem atira. Ruby atinge o nível animalesco. Fala francês enquanto se questiona não conhecer a língua. Estala os dedos, despe-se enquanto canta, se arrasta e late como um cão:

– Eu te amo! Você é um gênio!

Enquanto controla Ruby como se fosse uma marionete, Calvin sofre ao mesmo tempo em que se sente muito poderoso, e nesse momento é arrogante e admite a genialidade, sua capacidade de criar um personagem de carne e osso. Em êxtase, ele bate na mesa, enquanto Ruby se desdobra pelo chão. O trabalho está concluído. “Assim que Ruby saiu de casa, se libertou do passado. Ela não era mais uma criação de Calvin. Ela era livre.” A liberdade “concedida” ao personagem de Ruby – exausta após à performance compulsória – remete à independência do texto depois de ser escrito, além de indicar como a recepção pode moldá-lo ao seu gosto, ou como as correntes de interpretação podem divergir da suposta intencionalidade do escritor.

Na manhã seguinte, a casa está vazia, sem as coisas de Ruby. As pistas antagônicas do roteiro sobre a existência ou não dela possibilitam um filme sem uma interpretação pronta, limitada, assim como uma obra literária canônica deve ser. Teria a criatura desistido do criador? Depois da catarse, Calvin muda o seu padrão de escrita para a possibilidade atual, consciente, editável, e bem menos assombrosa. Coloca a proteção na máquina e a substitui na escrivaninha por um notebook da Apple. Contempla o vazio.

(…)

No lançamento de seu livro “A Namorada”, Calvin discursa:

– Essa é a história verdadeira e impossível de meu grande amor. Na esperança de que ela não leia e me repreenda, eu omiti vários detalhes. O nome, o nascimento, a adolescência, marcas de nascença e cicatrizes. Mesmo assim, só me resta escrever para dizer a ela: “Peço desculpas pelas palavras que escrevi para mudar você. Eu me arrependo de muitas coisas. Não consegui ver você enquanto esteve comigo. Agora que se foi vejo você em toda parte.” (…) Disseram sobre O Apanhador no Campo de Centeio: “Aquele raro milagre da ficção voltou a acontecer: um ser humano foi criado a partir de tinta, papel e imaginação.”(*)

O diálogo final propõe uma continuação incerta, tanto para o filme, quanto para o livro dentro do filme, e agora, de forma metalinguística, finaliza essa carta: – Só não me diga como acaba.

(*) Este é um comentário feito pelo crítico Clinton Fadiman sobre a verossimilhança do personagem criado no romance de Salinger.

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