BOA SORTE

– Há vários tipos de amor, qual deles você quer?

O pôster de Boa Sorte (2014) – filme dirigido por Carolina Jabor com roteiro de Jorge Furtado – apresenta essa frase e uma foto genérica de João Pedro Zappa e Deborah Secco, e não tinha me convencido a assistir, ainda mais que eu não simpatizAVA com a figura da atriz, habituée de novelas de quinta categoria globais. Mas eis que fui pega desprevenida… Deborah está incrivelmente intensa no papel, para o qual se dedicou de corpo (14 quilos mais magra!) e alma.

Percebi várias referências a outros filmes, intencionais ou não. A diferença de idade entre Judite e João não chega nem perto de um Ensina-me a Viver (1971), claro, mas é suficiente para deixar com a consciência limpa alguma jovem senhora que por acaso se apaixone por um garoto (…). A falta de jeito e jovialidade latente do moço certamente alude a um Dustin Hoffman novinho em A primeira noite de um homem (1967). Por fim, salvas as devidas proporções, não há como não lembrar dos copinhos de remédio, das festas proibidas e da relativização da loucura de Um Estranho no Ninho (1975). Bem menos pesado, mas se assemelha ao gênero sanatório de Bicho de 7 Cabeças (2001), em que Rodrigo Santoro exorciza a imagem de galã e se concretiza como excelente ator.

– Se você limpa sua sujeira e paga suas contas, pode enlouquecer a vontade! (Judite)

A atmosfera nublada, a mesa de ping pong (tinha uma em meu colégio) e a iminência da morte (ao menos por um depressivo desejo suicida) me remeteram a minha melancólica adolescência. Eu não era nenhuma junkie, mas me é bem familiar a sensação de ter como melhor amigo um diário, companheiro consolador de descobertas e desilusões, além de ter usufruído das vantagens de ficar invisível às vezes.

Dessa vez não vou contar muito, mas já aviso para preparar os lenços durante as animações com desenhos em aquarela, mais pro final do filme, que me deixaram com “um osso de galinha preso na garganta”, como diria a Vada de Meu Primeiro Amor (1991), personagem mais representativa de minha também perturbada infância. Hoje me identifico mais com a cena em que dançam “Talk to me” pelos corredores. 😉

– Quando eu entrei nela eu nasci.

A frase de João revela uma falta de conexão com os pais, mais visivelmente uma fase de desprendimento do útero materno. Sua iniciação sexual, motivo de muito drama entre jovens, parece ter curado suas feridas mais profundas, paradoxo com o vírus parasita que consome Judite.  Ele voltou a tocar seu violão, do qual providencialmente tinham sido retiradas as cordas para que não se enforcasse com elas.

O tabu da AIDS continua aterrorizando a sociedade, temor corporificado na cena em que a protagonista, soropositiva, corta o dedo ao partir um limão para uma artimanha secreta. A sátira à hipocrisia quanto ao uso de drogas é considerável. Viagens alucinógenas de Judite – não por acaso seu nome é de uma personagem bíblica forte e sanguinária – são associadas às descrições sobre os estados da mente atingidos por meio da meditação. Além disso, ver Fernanda Montenegro fumando um baseado enrolado na Bíblia (sim, eu vi isso, não estava louca!) não tem preço… O filme critica a legislação brasileira ser rigorosa apenas em casos como “idosos pobres” que precisam tomar seus remédios e não têm receita para apresentar às farmácias, e o uso abusivo e generalizado de antidepressivos.

Por todas essas sensibilidades, te desejo Boa Sorte pra assistir esse nacional essencial e raro, em cartaz em tão poucas salas de cinema, provavelmente por não se tratar de mais uma comédia babaca. Não me sai da cabeça especialmente um dos frames mais belos do longa: folhas de alface na terra úmida, formigas e uma bituca de cigarro. Por um momento o glamour dos fumantes de filmes noir dos anos 40 não foi censurado.

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