Attila Marcel e as lembranças que adoram música

Nunca chorei tanto em uma “comédia”, não por ser triste, ou porque eu estivesse triste, mas por ficar deslumbrada com o resultado, além de sentir uma identificação absurda – mais do que com os personagens – com os temas. Novamente, Attila Marcel parece ter desenterrado memórias subconscientes não só do protagonista, mas minhas.

“Achamos tudo em nossa memória: Ela é uma espécie de farmácia, onde encontramos sem querer, ora um calmante, ora um veneno perigoso.” Marcel Proust

Sugestivo compararmos os nomes de personagens centrais da trama ao desse famoso pensador, cuja epígrafe não só inicia, mas condensa o roteiro e suas surpresas. Em uma das cenas mais representativas, Madame Proust, minha personagem preferida, consegue a chave da casa da família e quando invade o quarto de Paul o crucifixo pendurado sobre a cama cai, sendo substituído pelo ursinho Ted (Mr. Bean feelings), o que enfatiza o universo infantil do protagonista e antecipa a mudança de paradigma religioso que irá se instaurar, pois a vizinha prepara chás com ervas que expandem a consciência.

A abertura causa a impressão de que o filme se trata de uma narrativa de herói. Com o nome estampado nas costas da jaqueta, Attila passeia pelo quarteirão da popularidade, assistido (por nós e) pela esposa e pelo filho a transitar por todas as tribos: querido por beats, hippies, punks, e até pela classe trabalhadora, a caminhada situa a história por volta do final dos anos 70. A julgar pelo grito do pai, e pelo susto do filho (ambos interpretados com pontualidade por Guillaume Gouix), percebemos que a vinheta se tratava de um sonho.

Tendo Paul acordado, somos convidados a conhecer seu mundo. O pianista é rodeado por idosos, o que contrasta com sua condição infantilizada. Os pais de Paul tiveram uma morte misteriosa em sua infância e ele parece ter estagnado ali, trauma que o deixou mudo. Não é extremamente original um protagonista mudo? O silêncio é uma das referências a Bicicletas de Belleville (2003), estreia de Sylvain Chomet, seguido por outros longas de animação.

Outra marca de estilo do diretor – que ainda esta se descobrindo, mas que para mim começou com o pé direito também no terreno do live action –  é a sensação de separação nítida entre os traumas e vivencias árduas e o resto do mundo, que não para de rodar. As sequências de seus banhos são marcadores, como em Beleza Americana (1999), ilustrando os únicos momentos introspectivos, de paz. Os sonhos e viagens terapêuticas tanto o aterrorizam quanto tranquilizam, e funcionam perfeitamente como videoclipes.  A música é o elemento que cura e faz encarar e superar as feridas do passado. O enquadramento de Paul acompanhado por suas tias no banco traseiro do ônibus é usual, também presente no clássico A primeira noite de um homem (1967) e em Ladrão de Casaca (1955), filme mais legal do Hitchcock…

As tias de Paul não são gêmeas, mas se vestem sempre de forma idêntica. Elas usam bolsas transparentes, como se quisessem deixar às claras que não estão escondendo nada. O vestuário é sisudo e a conduta delas com os alunos de dança de salão é rígida e severa, evidenciando a ordem e a religiosidade que procuram manter nas aparências. Paul foi criado por elas neste molde. A cada canção completada ele se presenteia com uma rosquinha doce (“chuquete”), como um animal amestrado. Em seu aniversário ele recebe presentes adequados para crianças, todos com a temática musical, como se ele fosse apenas isso, um músico. O comportamento de Paul é retraído e meticuloso, sempre limpando o banco onde irá sentar, ou as teclas de seu piano. As fotos de seus pais, de acordo com seu imaginário, eram cortadas e separadas em caixas (adoração da mãe versus medo inexplicável do pai).

Madame Proust tem uma cadela surda e M. Coelho é seu cliente cego. Num dos momentos hilários ela alega: “Que belo trio eu tenho”. Em um aforismo menos irônico e mais reflexivo, por fim, enfatiza indiretamente a condição animalesca de Paul: Os animais não falam, não perturbam ninguém com seus problemas. E para consolar minha mais nova amiga a distância, também colunista do Cinema em Cena que lamentou: “A vida é curta e são tantos filmes!” (Wittmann, 2014), Madame Proust, budista, diria: Ainda bem que temos muitas vidas…

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