MTP: Desfile de Encerramento – O Peso da Leveza

Após semanas intensas de reflexões existenciais profundas, definição ou desapego do ser, após trabalhar o dia todo sabendo que trabalharei mais sem emendar o feriado, após a ansiedade, o frio do ar condicionado, os passos lentos das colegas, a expectativa da incerteza de conseguir entrar, o ÚLTIMO ingresso conseguido após muita perturbação aos professores do Senai, finalmente as luzes. Sozinha, com meu look outsider, sem chamar muita atenção entro pelo lado “não imprensa” da plateia. Passei pela tentação de sentar nos banquinhos reservados com lembrancinhas atrativas. Cheguei a encostar em uma delas e desfilar pelas cadeiras, mas meu código de ética só me permitiu escolher um lugar distante de visão ampla, e cometer a indelicadeza de guardar um lugar pra Raffa, aniversariante que não conseguira passe. Minha consciência pesava por não ter a presenteado com o ÚLTIMO “my precious” ingresso. Não tive coragem. Eu precisava entrar.

A música da sala de espera era agonizante. Batida repetitiva proposital. Ânimos alterados, pessoas de todos os tipos que não param de entrar e olhar os dois lugares vazios ao meu lado, a Raffa que não entra, o desfile que não começa. Pilastras e cabeças atrapalham a futura visão. As luzes se apagam. Os lugares continuam vazios, agora sem bolsas. Uma colagem interessante sombria surge rapidamente no painel, precedendo a estreia da palavra Plural no Minas Trend Preview. Sinto uma facada no peito e estremeço por inteiro ao reconhecer o medley “Somebody that I Used to Know” do criativo Gotye, trilha sonora de uma conversa recente com meu amigo budista. De longe consegui prestar atenção na fluidez esperada pelo tema da edição “leveza”. Flores dividiam espaço com modelos confortáveis, amplos. Os cabelos passavam uma sensação fresh de quem acaba de sair do banho.

O desfile da Aurea Prates começa num clima anos 50-60. Bonequinhas de luxo com seus coques poderosos marcham inclinadas para esperarem perfeitas por seus maridos… não mais! Andam sozinhas, confiantes em transparências com detalhes sutis, cores marcantes dosadas com suavidade. Vanderléia canta no rádio, puxando para o RRei, cheio de atitude mutante em “Se você pensa”… foi o que salvei com o que me resta de cultura retrô. Reconheço a Raffa clicando do outro lado, no perfeito look fotógrafa despojada, perto do fêssor de camisa laranja. Ela conseguiu de pertinho!

Uma poesia passa a ser declarada em meio à escuridão. A voz masculina grossa questiona sentimentos, cita referências clássicas, e se rende ao lado belo do amor, comparado a uma joia. Me frustro ao assistir garotas preocupadas com seus celulares. Estariam também ouvindo sobre Romeu e Julieta, quando o amor esbarra no drama? Enquanto ele declamava literalmente acima de meus ouvidos (me sentei a frente do locutor), uma estrutura avermelhada transparente é rebaixada sobre a passarela, e um dançarino surge neste aquário de sangue, sem medo de parecer andrógino, aparentando misteriosa cultura e naturalidade. Me fez lembrar os clipes do Sopor Aeternus, um lance meio David Lynch, embalado pela canção mística, quase bizarra. Ao som de “Monte Castelo” outra voz forte, quando podemos “ouvir os mortos”, as mulheres passeiam pelas areias indianas com seus glamourosos saris. Carregavam filhos nos ventres, não há dúvida. Carregavam um sofrer no olhar, e as peças pesavam misteriosamente. Acabada a viagem, as filhas do fictício casal de dançarinos os seguem na despedida definitiva. Os aplausos só não podem ser mais altos do que quando a primeira mulher adentrou, e o dançarino se escondeu provisoriamente. Mary Arantes completa uma volta inteira com seus cabelos mais curtos, mostrando que aceitou o convite à leveza.

A julgar pelo contraste interessante disso tudo… A leveza proposta ultrapassou saudavelmente seu limite culminando em um adorável pesar (pois o equilíbrio e a perfeição são difíceis, se não impossíveis). Para suavizar o quase imperceptível, mas não menos impactante choque com culturas passadas, um tanto quanto dolorosas, incenso como alento pra levar pra casa e um grupo de encantadores Hare Krishnas a cantar mantras e dançar, privações que não necessitam passar…

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s