O sítio do corvo negro

(Conto escrito em 2005, uma versão moderna de Sítio do Pica-Pau Amarelo para desagradar Monteiro Lobato, e um raríssimo texto “criativo” meu – não conscientemente baseado em fatos da vida, nem inspirado por filmes ou sonhos)

Nas estradas distantes, depois da solidão e das vacas, escondia-se uma casa média cercada por rosas e espinhos, onde o tempo era sempre nublado e sombrio. O vento balançava os negros cabelos roxos de Anastácia, que ali morava. Não havia crianças por perto. Os pássaros se afastaram dali por fadiga. Não era exatamente um sítio o local. Lá não se alimentavam animais, apenas plantas. A dona, jovem e centrada, vivia do que colhia já assassinando, e do que caía das árvores. Não havia homens por perto. Sua ambição fora abafada pelo cansaço, seus medos e dúvidas foram afastados pela força rural, e do metal. Tinha apenas fitas, vinis, livros… mente e alma preenchidas pela paisagem ora doce, ora macabra. Montes e montes e folhas para ver, misturados a uma existência vampírica. Seus sonhos pareciam com sua morada. Ela acordava, e vivia de sonhos. Uma noite apareceu uma boneca semi-humana toda preta, cabeça careca. Parecia um vodu, mulher apenas pelos movimentos obscenos que fazia desengonçada, tenebrosa e irritante. Na manhã seguinte foi concebida Emily, que como parte da decoração já não assustava mais. Noutra utopia, com restos da anterior, um senhor negro usava uma touca xadrez, tinha amputados o braço direito e a perna esquerda, formando uma figura bizarra na fumaça. Vozes guturais e líricas murmuravam em coro: “saci…saci!!” num desespero manicômico. “Porcos são amigos”, Anastácia pensava. Entre suas aquisições citatinas estava uma coleção vasta de porquinhos rosa, vivos para sempre. Numa tarde quente – porém ainda cinza – um deles deu para se mexer na estante. De fato, ele se mexia e sua boca verde dizia num sorriso sarcástico: “Deus quer que você me coma, sua bruxa!!!” Logo em seguida, a noite veio cobrir, e naturalmente levá-la ao sono. Ela precisava dormir. Dormir ou devanear. Dormir e sonhar. Escuridão amena e silenciosa. Surge a foto de uma lagarta gigante, cabelos desgrenhados, tipo Tina Turner, lembrando Robert Smith. Seria a cura dela? A “cucker” mexia num caldeirão de onde saía insuportável espuma, com um braço humano de aspecto podre. Provavelmente a amputação do velho saci de touca. Bem a cara de sua mãe, ou a cara de deus, fisionomia repetida. Sem mais frases, só estrelas voando no vapor. A imagem de um trem viajando, o rosto de uma adolescente rememorável, sorriso falso, nariz pequeno. Uma p*** vespertina ensolarada. O que não cabia em seus dias. Hum, vontade, desejo de comer milho. Podia bem estar prenha de Drácula. Foi até a horta, seus milhos dançavam música celta. Porém um deles se excluíra do grupo bailante, lia Macário encostado num tronco de árvore, bem concentrado, e usava óculos! Ana se aproximou e ele se apresentou: – Visconde. Visconde de Sabugosa. Ana, desde então, dedicou-se à sitiofobia, acompanhada pela contemplação desnorteada de suas escolhas, o que a enchia sem arrogância. Contente com sua melancolia, humilde chorava diante da chuva. Teve a primeira visão viva real e concreta em séculos. Em cima do telhado pousara um corvo negro, exatamente igual aos outros. Nada tinha de especial, mas nem por isso deixava de compor um cenário gótico. A brisa levou o corpo de Ana sem que ela sentisse. Não fez diferença se ela estava morta ou viva, ela continuava, bela e nova a caminhar por sua área. E sem saber caminhava também pelas mentes noturnas de suas semelhantes ainda não despertadas…

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